Quebrando o gelo
Enquanto a camada glacial do Pólo Norte encolhe, esquenta a briga por território e recursos minerais.
Alguns dados:
1) No mês de agosto, foi possível, pela primeira vez na história, navegar do Oceano Atlântico para o Pacífico pelo norte do Canadá;
2) O derretimento da calota polar em 2007 foi dez vezes maior que a média anual;
3) A calota como um todo está 25% menor do que há 30 anos e;
4) Cálculos pessimistas datam 2040 como o último ano com gelo no verão. Com cada vez menos gelo reflete menos luz solar, parece ser um xeque-mate. Mas, onde a maioria vê crise, alguns vêem oportunidade.
Eticamente, não se pode dizer que os países do norte estão felizes com o aquecimento global. Nações tropicais, como o nosso país, vão sofrer com ele. Mas menos gelo polar significa mais navegação, mais área para pesca, melhores colheitas, transporte terrestre facilitado. É natural que os povos da região vejam o lado positivo da coisa. E os países árticos (Canadá, Noruega, Rússia, Dinamarca e EUA) estão atrás de um pedaço maior desse lado positivo.
A Rússia, por exemplo, organizou uma expedição que, em 2 de agosto, colocou sua bandeira no fundo do mar, exatamente sobre o Pólo Norte. A patriotada não teve nenhum efeito prático, mas fez um barulho danado. Uma semana depois, o primeiro-ministro canadense, Stephen Harper, voou até a ilha de Corwallis, no extremo norte do país, para anunciar a construção de um porto e uma base militar. Já os dinamarqueses iniciaram uma expedição para mapear a plataforma continental ao norte da Groelândia.
Por fim, após décadas de ramerrame, a Noruega inaugurou a primeira plataforma marítima de extração de combustível do Ártico, a Snohvit (“Branca de Neve” em norueguês). A previsão de lucro é de 1,4 bilhão de dólares em gás natural nos próximos 25 anos. São pouco mais de 50 milhões de dólares por ano. Com isso, dá-se a impressão de que é para marcar território mesmo. Há estimativas de que a região possua 25% das reservas de petróleo e gás natural do mundo.
Assim que a Passagem do Noroeste (a que se abriu pela primeira vez neste verão no Hemisfério Norte) se tornar uma rota definitiva, serão 8 mil km a menos entre Ásia e Europa do que o caminho tradicional, pelo canal do Panamá. Desnecessário dizer que o tráfego intenso de navios não vai fazer bem às focas e ursos polares.
Enquanto o Pólo Norte e sua vida selvagem agonizam, o Pólo Sul parece ter outro destino. A Antártida está protegida por um tratado de 1959 que proíbe, entre outras coisas, exploração do subsolo até 2041 (coincidentemente, o ano que o gelo pode desaparecer do Ártico). Além de estar muito distante de outras massas continentais, inibindo o movimento comercial e migração populacional, a Antártida continuará muito fria para se viver. Mais importante, lá não parece haver muitas riquezas minerais.
Salvos pela falta de petróleo, pingüins.
Fonte: Galileu n° 196 (adaptado)

